Luta de Classes e Transformação Sociocultural, por Jorge Feliciano

Luta de Classes e Transformação Sociocultural

Intervenção na Conferência Teatro: animação ou intervenção sociocultural? organizada no âmbito dos Distúrbios Culturais, uma iniciativa da Associação de Estudantes da Escola Superior de Educação de Beja.

Muito bom dia a todos.

Vou tentar nesta intervenção lançar algumas questões e linhas de reflexão a ver se conseguimos fazer desta sessão um debate vivo e participado por todos.

Parece-me que o mais importante é debatermos o para quê e a quem serve aquilo que é ou será a nossa profissão.

Afinal de contas, para que serve trabalhar no Teatro, nas Artes, na Cultura ou na Animação Sociocultural?

Antes de mais nada temos de nos enquadrar: nós fazemos parte de uma sociedade vasta, dividida por classes com interesses opostos. Não será difícil concordar que os interesses dos proprietários dos bancos, dos hipermercados, dos jornais e da televisão, das gasolineiras ou dos grandes latifúndios aqui do Alentejo são inconciliáveis com os interesses da imensa maioria dos trabalhadores.

Os primeiros estão interessados em explorar o trabalho dos outros e obterem lucros com isso, os segundos estão interessados em não serem explorados, em viverem com dignidade, em tomarem em suas próprias mãos, tudo aquilo a que têm direito.

No entanto, no sistema em que vivemos, esta oposição entre classes com interesses opostos surge constantemente camuflada. Quando ligamos a televisão, quando lemos os jornais, e até naquilo que aprendemos nas escolas e nas universidades, a sociedade nunca nos aparece dividida por classes com interesses opostos.

Parece que está tudo bem, exploradores e explorados vivem conciliados: há problemas sim senhor, o desemprego aumenta sim senhor, as propinas existem, os salários congelam ou diminuem, o ensino vai sendo progressivamente privatizado, o acesso aos meios de fruição e produção cultural vão sendo cada vez mais limitados; e, na medida inversa, as grandes empresas aumentam os seus lucros e uma minoria de exploradores vai açambarcando todos os meios de produção, inclusive a nossa força de trabalho que, dentro do actual sistema, é apenas mais uma mercadoria que se vende e se compra.

Mas, está tudo bem, é natural, é a vida… Sempre assim foi e sempre assim será…

Bom, pelo menos é assim que passa na TV e em quase todo o lado, mas a gente sabe que os Distúrbios Culturais não Passam na TV*, e nisso encontramos a prova de que aqui podemos falar de classes, de exploradores e explorados, enfim, aqui podemos chamar os bois pelos nomes.

E para que as coisas se clarifiquem mais um pouco, o nome deste sistema em que vivemos, o nome da besta, chama-se capitalismo.

Chegando aqui, penso que já se percebeu qual é o ponto de vista desta intervenção.

Obviamente, não é o ponto de vista de um proprietário de hipermercado, ou de um banco, ou de uma multinacional de hambúrgueres.

Se fosse esse o ponto de vista desta intervenção, já a seguir iria convencer-vos da importância dos animadores socioculturais ou dos agentes teatrais andarem a animar esses locais para os clientes sentirem-se bem e divertidos a comprar a crédito, ou então da importância de desenvolvermos projectos e joguinhos de dinâmicas de grupo com os trabalhadores em colaboração com a direcção dessas mega empresas, de forma a estimulá-los a produzirem mais e mais, a sentirem-se bem enquanto explorados, enfim, para os fazer sentir que a empresa é uma grande família e que o seu contributo é de valor, mas que andarem a reivindicar melhores salários, melhores condições de trabalho, horários estáveis, a aplicação do estatuto de trabalhador estudante é má onda, não é necessário, é andarem a dividir esta grande e feliz família que é a grande empresa.

Bom, mas se o ponto de vista desta intervenção não é o de um dono de hipermercado ou de um banco, qual é então?

É fácil, se não partimos do ponto de vista dos exploradores, da classe dominante, partimos então do ponto de vista dos explorados.

A partir do momento em que temos consciência do nosso ponto de vista (e esta consciência chama-se consciência de classe) o que podemos nós fazer para defender os interesses de quem é explorado tendo em conta que a classe dominante não está minimamente interessada em que trabalhemos a partir deste ponto de vista?

Esta pergunta vou deixá-la no ar a ver se alguém a agarra no debate.

Assim sendo vou apenas dar mais algumas achegas breves que talvez ajudem a enquadrar a nossa discussão.

Já falámos aqui um pouco de palavras, e de significados. Por vezes habituamo-nos tanto a chamar por determinado nome a determinada coisa que deixamos de perceber que, muitas vezes, o próprio nome é também ele limitador ou, até, manipulador.

Eu também estudei e trabalho na animação sociocultural e digo-vos que esta conjunção de palavras, animação sociocultural, sempre me pareceu aquém daquilo que considero um ponto de vista justo.

Ao longo dos anos de estudo e ainda hoje, volta e meia, um professor ou aluno lembrava a todos, olhem que a palavra “animação” vem do latim “anima”, que significa “alma”.

Queriam eles dizer que a nossa profissão serve para “dar alma” à sociedade através da cultura.

Ora isto sempre me pareceu vago, demasiado vago, às vezes este conceito até despertava sentimentos místicos, como se fossemos algo indefinido entre o profeta e o bobo.

A nossa profissão, numa perspectiva de classe, não existe para “dar alma à sociedade através da cultura”, esse é um conceito demasiado abstracto.

Todos nós trabalhamos num mundo muito concreto, com pessoas muito concretas, oprimidas por um sistema também ele muito concreto.

Por isso, Interventores Socioculturais seria um nome melhor para a nossa profissão, mas, ainda assim, insuficiente. Talvez Transformadores Socioculturais fosse mais pertinente.

Porque a partir do momento em que ganhamos consciência de classe, e, por consequência, do nosso ponto de vista, o nosso trabalho passa a ser necessariamente um trabalho de transformação: de transformação concreta da realidade concreta do sistema em que vivemos. Um trabalho de transformação que sirva os explorados.

Porque a sociedade, o mundo, transformam-se.

A sua história é a história das suas transformações. E essa história tem como motor a luta entre classes com interesses opostos.

Nada é imutável, tudo se transforma.

Bom, por agora disse, fico à espera do debate. Não falei do nosso trabalho no Teatro Fórum de Moura porque me parece mais interessante uma troca de ideias mais abrangente, que discuta pela raiz os fundamentos da vossa futura (para alguns já actual) profissão.

Mas se quiserem fazer perguntas específicas sobre o nosso trabalho no Teatro Fórum de Moura e do esforço que fazemos para utilizá-lo como ferramenta de consciencialização e de transformação, terei todo o gosto em responder.

*Os Distúrbios Culturais não Passam na TV – Slogan da XV edição dos Distúrbios Culturais da da Associação de Estudantes da Escola Superior de Educação de Beja inspirado no título do documentário A revolução não será televisionada, filmado e dirigido pelos irlandeses Kim Bartley e Donnacha O’Briain.


23/03/2010

Participar na conversa:

(O vosso email não sera publicado.)

(Pode usar Markdown syntax.)

Faz favor entrar as letras como marcadas na imagem acima.
Letras nao sao case-sensitive.